Síndrome dos ovários policísticos não é sinônimo de cisto no ovário e pode afetar menstruação, ovulação, pele e fertilidade; ginecologista do Hospital e Maternidade Santa Joana explica os principais sinais e equívocos sobre a condição
“Tenho ovário policístico” é uma frase comum nos consultórios e nas redes sociais, mas nem sempre significa que a mulher realmente tenha a síndrome dos ovários policísticos (SOP). A confusão entre a presença de múltiplos folículos nos ovários e a síndrome é um dos principais motivos que levam mulheres a buscar informações e, em alguns casos, até tratamentos sem indicação.
A SOP é uma alteração hormonal e metabólica relativamente frequente durante a idade reprodutiva e pode se manifestar de diferentes formas. Alterações no ciclo menstrual, dificuldade para ovular, aumento de pelos, acne e queda de cabelo estão entre os sinais que podem estar associados à condição. O diagnóstico, no entanto, não é feito apenas pelo ultrassom.
“Um dos principais mitos é acreditar que o ultrassom, sozinho, diagnostica a síndrome dos ovários policísticos. A presença de múltiplos folículos pode fazer parte da aparência normal dos ovários de algumas mulheres e não significa necessariamente que exista uma síndrome”, explica Dra. Aline Marques, ginecologista do Hospital e Maternidade Santa Joana.
A especialista destaca que a SOP é uma condição que precisa ser avaliada de maneira individualizada. O diagnóstico considera o conjunto de sinais clínicos, histórico menstrual, exames laboratoriais e, quando indicado, a ultrassonografia. Além disso, outras condições que podem causar sintomas semelhantes precisam ser descartadas.
Mitos e verdades que ainda confundem muitas mulheres
Toda mulher com ovário policístico tem SOP?
Mito.
A presença de múltiplos folículos no ultrassom não é suficiente para estabelecer o diagnóstico. Os ovários podem apresentar esse aspecto sem que a mulher tenha a síndrome. Por isso, o resultado de um exame de imagem deve sempre ser interpretado em conjunto com a avaliação clínica.
A SOP sempre causa menstruação irregular?
Mito.
Embora ciclos irregulares sejam frequentes, nem todas as mulheres apresentam essa manifestação. Algumas podem ter ciclos aparentemente regulares e ainda apresentar outros sinais relacionados à síndrome. Da mesma forma, alterações menstruais podem ter diversas outras causas.
Quem tem SOP pode engravidar?
Verdade.
A síndrome pode dificultar a ovulação em algumas mulheres e, consequentemente, aumentar o tempo necessário para engravidar. Isso não significa, porém, que a gravidez seja impossível. Muitas mulheres com SOP engravidam espontaneamente ou com acompanhamento e tratamento adequado.
“É importante não transformar a SOP em uma sentença sobre a fertilidade. A síndrome pode estar relacionada à dificuldade de ovulação, mas existem diferentes estratégias para cada caso. O mais importante é entender o que está acontecendo com aquela paciente e qual é o seu objetivo reprodutivo”, afirma Dra. Aline.
Toda mulher com SOP precisa tomar anticoncepcional?
Mito.
O tratamento depende dos sintomas, da fase da vida e dos objetivos de cada paciente. Em algumas situações, métodos hormonais podem ser utilizados para controlar irregularidades menstruais e manifestações como acne e aumento de pelos. Para mulheres que desejam engravidar, a estratégia é diferente.
A SOP desaparece quando a mulher engravida?
Mito.
A gestação pode modificar temporariamente algumas manifestações da síndrome, mas isso não significa que a condição tenha desaparecido. A SOP está relacionada a características hormonais e metabólicas que podem permanecer ao longo da vida e merecem acompanhamento.
SOP é apenas um problema ginecológico?
Mito.
A síndrome também pode estar relacionada a alterações metabólicas. Algumas mulheres apresentam resistência à insulina, alterações nos níveis de colesterol e maior risco de desenvolver alterações glicêmicas. Por isso, o acompanhamento não deve se limitar aos sintomas ginecológicos.
Toda mulher com SOP está acima do peso?
Mito.
A síndrome pode ocorrer em mulheres com diferentes tipos de composição corporal. Embora o excesso de peso possa estar associado a algumas manifestações e agravar alterações metabólicas em determinadas pacientes, ele não é obrigatório para o diagnóstico.
Emagrecer pode ajudar no controle da SOP?
Verdade, em alguns casos.
Para mulheres que apresentam excesso de peso, mudanças no estilo de vida e uma perda de peso individualizada podem contribuir para melhorar aspectos metabólicos e, em algumas situações, favorecer a regularização da ovulação. Isso não significa, porém, que emagrecer seja o tratamento universal para todas as mulheres com SOP.
Diagnóstico não deve ser feito pelas redes sociais
A popularização do tema fez com que sintomas como acne, pelos em excesso, menstruação irregular e dificuldade para engravidar passassem a ser frequentemente associados à SOP de maneira automática. O problema é que esses sinais podem ter diferentes causas e não devem ser utilizados isoladamente para um autodiagnóstico.
“Nem toda alteração menstrual significa SOP, assim como acne ou aumento de pelos, isoladamente, não confirmam a síndrome. O diagnóstico exige uma avaliação médica cuidadosa justamente para diferenciar a SOP de outras condições que podem apresentar sintomas semelhantes”, explica a ginecologista.
A atenção é especialmente importante na adolescência, período em que alterações no ciclo menstrual e manifestações hormonais podem fazer parte do próprio processo de maturação. Nessa fase, o diagnóstico precisa ser ainda mais criterioso para evitar tratamentos desnecessários ou a rotulação precoce da paciente.
Além dos sintomas físicos, a SOP também pode afetar a qualidade de vida e a autoestima. Acne, aumento de pelos, alterações de peso e dificuldades relacionadas à fertilidade podem gerar impactos emocionais importantes, reforçando a necessidade de uma abordagem que considere a paciente de forma integral.
“O mais importante é entender que a SOP não se manifesta da mesma maneira em todas as mulheres. O tratamento deve ser individualizado e pode mudar ao longo da vida, de acordo com os sintomas e com os planos da paciente, inclusive em relação à maternidade”, finaliza Dra. Aline Marques.
A recomendação para mulheres que apresentam alterações persistentes no ciclo menstrual, sinais de excesso de andrógenos, dificuldade para engravidar ou outras manifestações que levantem suspeita de SOP é buscar avaliação com um ginecologista. O diagnóstico correto é fundamental para definir o acompanhamento e evitar que informações simplificadas ou conteúdos das redes sociais substituam a avaliação médica.


