Capacitação realizada em São Roque (SP) discute manejo biodinâmico, calendário astronômico e preparados utilizados no sistema de produção
A busca por sistemas de produção mais sustentáveis e pela valorização da viticultura paulista foi tema do Curso de Introdução ao Sistema Biodinâmico de Produção de Uva. O treinamento, realizado pela APTA REGIONAL de São Roque, instituição de pesquisa vinculada à Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA), vinculadas à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, integra o projeto “Avaliação das características agronômicas e industriais de videiras e vinhos em sistema biodinâmico de produção”, financiado pelo Instituto Mahle.
Realizado no último dia 5, o evento buscou ampliar a formação de pesquisadores, profissionais e estudantes sobre os fundamentos e as práticas da biodinâmica aplicadas à viticultura.
O sistema biodinâmico considera a propriedade agrícola como um organismo vivo e integrado, no qual solo, plantas, animais, recursos naturais e pessoas estão relacionados. Entre seus fundamentos estão o estímulo à atividade biológica do solo, o uso de preparados biodinâmicos elaborados com substâncias orgânicas e minerais em pequenas concentrações e a observação de ciclos naturais e calendários astronômicos para orientar diferentes atividades agrícolas.
Durante a programação, os participantes acompanharam conteúdos sobre a introdução ao sistema biodinâmico, o calendário biodinâmico e os preparados utilizados no manejo, proporcionando a troca de experiências, aproximando o conhecimento científico da realidade do campo.
Da formação à pesquisa
Para a palestrante, Luciana Gomes de Almeida, engenheira agrônoma e membro da Associação Brasileira de Agricultura Biodinâmica (ABAB), a capacitação representa um passo importante para ampliar a compreensão sobre a agricultura biodinâmica e aproximar o tema da formação acadêmica.
“A forte adesão de estudantes e professores demonstra o potencial de levar a agricultura biodinâmica para dentro das universidades e contribuir para a formação de novos profissionais. A APTA REGIONAL tem um papel fundamental ao fornecer respaldo científico e prático, permitindo que esse conhecimento alcance não apenas os agricultores, mas também os estudantes e o ambiente universitário”, destaca Luciana.
Segundo a palestrante, a utilização de uma abordagem simples e prática durante o curso facilitou a compreensão dos participantes sobre um modelo de manejo que amplia a perspectiva da produção agrícola. “Essa aproximação permite que os participantes compreendam os benefícios de um manejo que vai além dos princípios ecológicos tradicionais, tornando-se multiplicadores desse conhecimento em suas futuras áreas de atuação”, afirma.
Luciana também destaca que um dos principais desafios da agricultura biodinâmica no Brasil é ampliar a comprovação científica dos métodos utilizados. Nesse contexto, a atuação da APTA REGIONAL ganha relevância, especialmente pelas pesquisas realizadas nas unidades de São Roque e Pindamonhangaba.
“O pioneirismo da APTA REGIONAL, com destaque para as pesquisas desenvolvidas nestas unidades, especialmente na produção de uva, fornece o respaldo tecnológico e teórico necessário para avançarmos na validação desse modelo. A união entre os resultados empíricos já observados pelos agricultores e uma nova base científica pode trazer um impacto altamente positivo, consolidando a agricultura biodinâmica como uma alternativa viável e resiliente para o país”, avalia.
Pesquisa, formação e sustentabilidade
Para Wilson Tivelli, pesquisador da APTA REGIONAL de São Roque, o projeto tem também uma importante dimensão de formação profissional e transferência de tecnologia. “Estamos capacitando jovens profissionais e demonstrando aos viticultores que é viável produzir uvas de alta qualidade em bases biodinâmicas. Isso garante a agregação de valor ao produto paulista, melhora a qualidade dos empregos no campo e fortalece o PIB regional a partir de uma demanda mundial por sustentabilidade”, afirma Tivelli.
Segundo o pesquisador, a adoção de sistemas de produção que priorizam o aproveitamento dos recursos da propriedade e a redução da dependência de insumos externos também pode contribuir para a sustentabilidade econômica da atividade. “O uso do sistema biodinâmico reduz significativamente os custos com insumos e responde à crescente demanda nacional e internacional por vinhos naturais”, acrescenta.
Financiado pelo Instituto Mahle, o projeto desenvolvido na APTA REGIONAL de São Roque alia pesquisa científica, formação profissional e experimentação em viticultura agroecológica. A iniciativa aproxima estudantes de cursos relacionados às ciências agrárias da rotina de pesquisa e das tecnologias voltadas à produção sustentável de uvas e vinhos.
A experiência de quem está na formação
A aproximação entre pesquisa e ensino também foi destacada por Renata Oliveira, estudante do 6º e último semestre do curso de Tecnologia em Viticultura e Enologia do IFSP – Campus São Roque. Para ela, a parceria entre o IFSP e a APTA REGIONAL amplia o contato dos estudantes com a pesquisa e com os desafios enfrentados no campo.
“O curso sobre Agricultura Biodinâmica ampliou nossa compreensão sobre esse sistema de cultivo e evidenciou como a troca de conhecimentos entre pesquisadores, professores e estudantes fortalece a construção do conhecimento. Ter contato com profissionais que desenvolvem pesquisas e acompanham a evolução da viticultura sustentável nos inspira a buscar soluções inovadoras e nos prepara para os desafios da profissão. São experiências que vão muito além da sala de aula e contribuem para formar profissionais mais críticos, preparados e comprometidos com o futuro da viticultura brasileira”, comenta Renata.
Ciência aplicada à produção sustentável
Para José Pedro Santiago, agrônomo e presidente do Instituto Brasil Orgânico, a atuação da APTA REGIONAL de São Roque é estratégica para aproximar a ciência das transformações necessárias no setor agropecuário.
“A APTA REGIONAL em São Roque desempenha um papel fundamental ao fornecer base científica que hoje impulsiona práticas mais sustentáveis em larga escala, como é o caso dos bioinsumos. A pesquisa desenvolvida pela instituição transcende as fronteiras do cultivo orgânico, beneficiando diretamente todo o setor agropecuário paulista”, afirma Santiago.
“Esses bioinsumos que estão sendo tão falados hoje, é uma luta de 50 anos da agricultura orgânica para o controle biológico. Agora caiu a ficha dos produtores convencionais”, destaca.
A iniciativa reforça o papel da pesquisa pública no desenvolvimento e na disseminação de conhecimentos relacionados à sustentabilidade da produção agrícola. Ao trabalhar com a viticultura biodinâmica, a APTA REGIONAL de São Roque amplia as possibilidades de avaliação de sistemas de manejo e contribui para a formação de uma nova geração de profissionais preparados para os desafios da produção de uvas e vinhos agroecológicos.
Sobre o projeto
O projeto “Avaliação das características agronômicas e industriais de videiras e vinhos em sistema biodinâmico de produção” é desenvolvido na APTA REGIONAL de São Roque com financiamento do Instituto Mahle. A proposta envolve a avaliação de características agronômicas das videiras e de aspectos relacionados à produção de vinhos em sistema biodinâmico, além da transferência de conhecimentos por meio de atividades de formação e capacitação. O Instituto Mahle é uma Organização da Sociedade Civil (OSC) que nasceu para apoiar e assessorar iniciativas que compartilham de princípios e valores antroposóficos.
Sobre a APTA REGIONAL
Considerada o maior hub descentralizado de pesquisa agropecuária do Estado, a APTA REGIONAL oferece soluções tecnológicas aplicadas, adaptadas às realidades edafoclimáticas locais e regionais, contribuindo para o fortalecimento das cadeias produtivas e para uma agricultura mais sustentável e competitiva. Com 18 unidades regionais de pesquisa no Estado de São Paulo, atua em áreas como agronomia, zootecnia, pesca continental, sanidade vegetal e animal, agregação de valor em produtos agropecuários, sistemas integrados de produção e segurança alimentar. Possui 11 Redes de Pesquisas, com estudos que unem pesquisadores de várias áreas, transformando conhecimento em desenvolvimento, valorizando o futuro. Acesse nosso site www.agricultura.sp.gov.br/


