Saldo negativo de US$ 5,1 bilhões no segundo trimestre encerra ciclo histórico iniciado em 2007; aumento do endividamento privado e ritmo menor de crescimento das reservas pressionam indicador
O Brasil perdeu no segundo trimestre de 2026 um dos seus principais selos de solidez financeira internacional. Segundo dados divulgados pelo Banco Central, a dívida externa líquida do país ficou positiva em US$ 5,1 bilhões, o que significa que o total de débitos do Brasil no exterior voltou a superar o volume de ativos e reservas internacionais mantidos no exterior.
O resultado encerra um ciclo de 19 anos em que o Brasil figurou como credor líquido internacional — um status conquistado em 2007, durante o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e que havia resistido à crise financeira global de 2008, à recessão de 2014-2016 e ao impacto econômico da pandemia da Covid-19.
O que mudou nas contas externas?
A virada na posição financeira do país reflete dois movimentos simultâneos nos últimos anos:
-
Crescimento das captações privadas: Grande parte do aumento da dívida externa bruta no período atual veio do setor privado. Empresas e instituições financeiras brasileiras ampliaram a tomada de empréstimos e a emissão de títulos no exterior para financiar investimentos e operações.
-
Ritmo de expansão das reservas: Embora o Banco Central mantenha um colchão robusto de reservas internacionais (acima da casa dos US$ 300 bilhões), o crescimento desses ativos não acompanhou o ritmo do endividamento total acumulado no país.
O setor público continua protegido?
Apesar do tom desfavorável para a imagem de estabilidade do país, economistas e técnicos do mercado ressaltam que a deterioração da posição líquida não significa um risco imediato de crise de pagamentos ou calote.
Cerca de 73% da dívida externa bruta atual pertence ao setor privado. Quando se analisa isoladamente a posição do Governo Federal, o Estado brasileiro continua sendo credor líquido, pois detém a totalidade das reservas internacionais do país.
Ainda assim, a perda do status de credor internacional reduz a margem de manobra do país diante de eventuais choques externos e volatilidades no câmbio global, tornando o indicador um ponto de atenção para analistas e agências de classificação de risco.


