Versões mais recentes incluem uma declaração aparentemente contraditória exigindo encaminhamento imediato à gerência para alguns exemplos de conteúdo ilegal.
O documento também fornece aos moderadores instruções específicas para lidar com as contas — dependendo da popularidade de cada uma.
Diz que contas com um número maior de assinantes podem receber advertências adicionais quando as regras são violadas.
No entanto, a equipe é instruída a moderar as contas com baixo número de usuários “como faríamos e [restringir] quando for necessário”.
Com contas de médio alcance, eles são orientados a advertir, “mas restringir apenas após o terceiro aviso”.
Se um dos criadores de conteúdo do site mais bem-sucedidos — e lucrativos — infringir as regras, o caso será tratado por uma equipe diferente.
“Existe uma discriminação entre contas”, diz Christof.
“Isso mostra que o dinheiro é a prioridade.”
O segundo moderador acrescenta que com violações de qualquer tipo, “você recebe algumas advertências, não recebe apenas uma e então está fora.”
Um especialista em moderação de conteúdo diz que os documentos mostram claramente que o OnlyFans tem uma “certa tolerância” com material ilegal.
“Isso sugere que eles conhecem o suficiente o tipo de conteúdo ilegal que seus usuários estão tentando fazer upload para ter padrões para isso”, afirma Sarah Roberts, codiretora do Centro de Investigação Crítica da Internet da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos Estados Unidos.
“Como [o OnlyFans] tem uma certa dose de leniência, isso também sugere que eles não estão dispostos a alienar completamente seus criadores de conteúdo — mesmo pessoas que podem fazer coisas ilegais na pior das hipóteses, inadequadas na melhor das hipóteses — retirando eles imediatamente da plataforma.”
Apesar de ser descrito como um “manual de compliance” no cabeçalho de cada página de todas as versões do documento de 2021, o OnlyFans afirma que os documentos não são manuais ou “orientações oficiais”.
O primeiro documento — de 2020 — tem edições atribuídas a Tom Stokely, diretor de operações da empresa.
Christof conta que frequentemente se depara com conteúdos em que teme que as pessoas possam estar sendo exploradas.
Ele diz que embora os documentos estabeleçam instruções para lidar com conteúdo proibido, eles não contêm requisitos para os moderadores levantarem questões sobre exploração.
Vídeos, a que a BBC assistiu, do homem pagando moradores de rua para fazer sexo diante das câmeras levantaram tais preocupações. A conta se gaba de “caçar” sem-teto e fala abertamente sobre “tirar vantagem” deles.
Uma conta diferente apresenta sinais característicos de tráfico e exploração, de acordo com um advogado que direcionou a BBC News para a mesma.
Uma mulher, cujo rosto nunca é mostrado, aparece em alguns vídeos com as paredes e o chão totalmente cobertos por tapetes — e há referências repetidas a viagens pela Europa.
O detetive Joseph Scaramucci, que trabalha no Texas, nos Estados Unidos, diz que atuou recentemente em casos específicos de tráfico de seres humanos em que havia sinais óbvios de mulheres sob o controle de outra pessoa aparecendo em vídeos do OnlyFans.
Ele diz que alguns homens ficam felizes em pagar para fazer sexo com essas mulheres — e pagam mais ainda para serem filmados e terem o vídeo publicado no OnlyFans.
Neste mês, 101 membros do Congresso americano assinaram uma carta pedindo que o Departamento de Justiça dos EUA investigue o conteúdo do OnlyFans, principalmente com foco na exploração sexual infantil.
Em resposta, o OnlyFans disse que tem uma política de tolerância zero em relação a conteúdo de abuso sexual infantil, que denuncia às autoridades relevantes e apoia suas investigações.
O agente especial Austin Berrier, do departamento de segurança nacional dos EUA, é especialista em investigar exploração infantil online.
Ele estima encontrar entre 20-30 imagens de abuso infantil por semana, que ele diz terem claramente se originado no OnlyFans.
Segundo ele, todos os fóruns da internet que visitou como parte de suas investigações nos últimos seis meses mais ou menos, incluíam imagens de abuso infantil proveniente do OnlyFans.
A maioria são vídeos que foram transmitidos ao vivo no site. E, de acordo com ele, em alguns deles, as crianças recebem orientações.
“Está por aí, está em todo o lugar e está sendo amplamente negociado.”
Dezenas de contas que parecem ter sido criadas por usuários menores de idade são fechadas todos os dias, de acordo com Christof, que compartilhou com a BBC News um registro de algumas contas fechadas durante um período de algumas semanas.
Quase todas as contas de menores de idade são de assinantes, e não de criadores de conteúdo — incluindo, diz ele, crianças de 10 anos.
Embora não possam postar fotos ou receber pagamentos diretamente pelo site, Christof afirma que alguns usam a plataforma para anunciar serviços de “acompanhantes” ou a venda de fotos explícitas de si mesmos.
O perfil de um assinante afirmava ter 16 anos e anunciava a venda de fotos de pés “ou outras” partes por £ 4.
Christof diz que este é um problema particular em contas que não usam o inglês como idioma.
De acordo com ele, algumas contas em línguas estrangeiras são insuficientemente moderadas, apesar da enorme popularidade do site em todo o mundo.
A BBC News conseguiu abrir duas contas de assinantes em francês e alemão — apesar de declarar explicitamente que eram jovens adolescentes na biografia e anunciar a venda de fotos.
As contas permaneceram ativas por uma semana até que a BBC News entrou em contato com o OnlyFans.
O OnlyFans disse que todo o conteúdo pode ser denunciado por moderadores, e a empresa cumpre a legislação de combate ao tráfico e fornece treinamento anual para os funcionários.
A companhia afirmou ainda que a conta que apresenta moradores de rua viola seus termos e condições e agora foi encerrada, e que analisa ativamente os feeds transmitidos ao vivo.
A baronesa Kidron, ativista de direitos das crianças, diz que qualquer leniência em relação a contas que postam material ilegal é “errada”.
“A resposta está no nome: se for conteúdo ilegal, deve haver tolerância zero”, diz a fundadora da instituição 5Rights Foundation, que luta pelo direito das crianças, e membro do comitê pré-legislativo de avaliação do projeto de lei de segurança online, há muito adiado.
Segundo ela, as empresas de pagamento devem assumir a responsabilidade pela forma como seus serviços estão sendo usados.
“As empresas devem retirar seu apoio comercial, a menos que e até que haja um OnlyFans que seja claramente um site adulto”, sugere.
Na quinta-feira (19/8), o OnlyFans disse ao Financial Times que a empresa estava proibindo a pornografia na plataforma para “atender às solicitações de nossos parceiros bancários e provedores de pagamentos”.
Muitos provedores de pagamento, incluindo os gigantes do setor Visa e Mastercard, proíbem o uso de seus serviços para tipos específicos de conteúdo. No ano passado, ambos encerraram seu relacionamento com o Pornhub após denúcias de material ilegal.
Kidron também acredita que padrões mínimos de moderação e um código de conduta estatutário devem ser introduzidos para lidar com a leniência em relação a contas que publicam material ilegal.
A BBC News soube que o Departamento de Cultura, Mídia e Esporte (DCMS, na sigla em inglês) do Reino Unido foi avisado por uma instituição americana de combate ao tráfico sobre o conteúdo do OnlyFans em 2019 e assistiu a uma apresentação.
Em comunicado, o DCMS disse que o projeto de lei de segurança online introduziria as leis mais rigorosas do mundo — e que o OnlyFans enfrentaria multas pesadas ou seria bloqueado se falhasse em combater o conteúdo ilegal.
E acrescentou que o Ofcom, órgão regulador britânico de telecomunicações, já tem o poder de suspender sites de vídeo se não tomarem medidas para proteger os usuários de conteúdo prejudicial.
Em maio, o OnlyFans publicou seu balanço mais recente e afirmou que “qualquer lapso” no monitoramento de conteúdo de menores e tráfico “poderia trazer sanções governamentais de uma ampla variedade de países e órgãos reguladores”.
A empresa se recusou repetidamente a ser entrevistada pela BBC News sobre esses assuntos.
Em resposta à BBC News, a companhia disse que cumpre integralmente todas as leis e regulamentos que se aplicam a ela globalmente — incluindo as da Ofcom — e que usa um software de monitoramento e verificação de idade de última geração, juntamente ao monitoramento humano.
O OnlyFans afirma acreditar que um dos moderadores com quem a BBC News conversou foi um funcionário demitido por repetidas falhas no fechamento de contas contendo material não autorizado.
A fonte diz que repetidamente levantou a questão do número de contas de assinantes menores de idade com o OnlyFans.
Fonte: G1.