Estudo mapeia hábitos de uso da população e revela uma “crise de autenticidade” impulsionada por um choque geracional na detecção de conteúdos sintéticos
São Paulo — A Inteligência Artificial já faz parte da rotina dos brasileiros e vem se consolidando como uma das principais ferramentas de apoio para tarefas do dia a dia, aprendizado e busca por informações. À medida que a tecnologia avança, cresce também a necessidade de que as pessoas saibam usá-la com senso crítico e sejam capazes de distinguir conteúdos reais daqueles produzidos artificialmente. É o que revela uma pesquisa realizada pelo Projeto Brief com 2.483 pessoas em todo o país.
O levantamento mostra que 58,4% dos entrevistados utilizam ferramentas de IA com alta frequência, sendo que 36,4% recorrem a elas várias vezes ao dia. Entre os usos mais comuns estão tirar dúvidas do cotidiano (56,8%), estudar e pesquisar (54%) e criar imagens ou vídeos (44%), evidenciando que a tecnologia já ocupa um espaço relevante e majoritariamente positivo na vida dos brasileiros. Esse entusiasmo se reflete nas emoções: 42% dos entrevistados dizem estar muito animados com o avanço da IA, e outros 26,2% se declaram esperançosos.
Apesar dessa familiaridade crescente, a pesquisa identificou um desafio importante: a capacidade de reconhecer conteúdos criados por IA ainda é limitada. Em um experimento realizado durante o estudo, os participantes foram expostos a vídeos originais e a uma versão gerada por Inteligência Artificial do presidente Lula. Apenas 39,5% conseguiram identificar corretamente o vídeo criado por IA, enquanto 37,7% acreditaram que o conteúdo era original e 22,8% não souberam dizer.
Para Carol Luck, antropóloga especialista em comportamento digital e coordenadora do Projeto Brief, o resultado acende um alerta que vai além da tecnologia em si. “A questão central é qual uso se faz dela. Vivemos um momento em que criar um vídeo falso e convincente de qualquer pessoa, inclusive de figuras públicas e políticos, está ao alcance de qualquer um com urgente, sobretudo em ano de eleição”, afirma.
O estudo revela ainda que a desconfiança também recai sobre conteúdos verdadeiros: quando os participantes assistiram a um vídeo autêntico, 33,9% acreditaram que ele havia sido criado por Inteligência Artificial. O impacto eleitoral percebido desse tipo de conteúdo sintético alcançou média de 7,1 em uma escala de 0 a 10 — e 88,3% dos entrevistados apoiam a criação de limites legais para o uso de IA na política, nos mesmos moldes das regras já existentes para propaganda eleitoral. Sobre quem deveria fiscalizar esse uso, 52,1% apontam o TSE como instituição responsável.
Segundo Ricardo Borges Martins, cientista político e coordenador-geral do Projeto Brief, esse cenário exige uma mudança de postura coletiva em relação à tecnologia. “As críticas à IA são legítimas e até saudáveis — o próprio estudo mostra que ela já corrói nossa capacidade de confiar no que vemos. Mas, como as redes sociais, é uma realidade da qual não vamos escapar. O desafio é fazer as duas coisas ao mesmo tempo: regular com seriedade e nos apropriarmos criticamente dessas ferramentas, para que suas potencialidades sirvam ao interesse público, e não apenas a quem as controla.”
A pesquisa também identificou diferenças significativas entre as faixas etárias. Jovens entre 18 e 29 anos apresentaram melhor desempenho na identificação do vídeo gerado por IA, com taxa de acerto de 58,2%. Ao mesmo tempo, esse grupo demonstrou níveis elevados de desconfiança: 39% classificaram o vídeo original como falso. Para Carol Luck, esse comportamento revela uma geração que já incorporou o questionamento como parte do consumo digital. “Os jovens desenvolveram uma espécie de senso crítico em relação ao que consomem online. Eles reconhecem os padrões da IA com mais facilidade, mas também enxergam o conteúdo verdadeiro com mais ceticismo, o que mostra como o ambiente digital está mudando a relação das pessoas com a informação”, explica.
Entre as pessoas com 61 anos ou mais, a vulnerabilidade é ainda maior: apenas 20,9% conseguiram identificar corretamente o conteúdo criado por IA, enquanto 47% acreditaram que o vídeo criado por computador era verdadeiro. Segundo Luck, isso reflete uma transformação tecnológica que tornou obsoletos os antigos critérios de verificação. “Por muito tempo, identificar uma manipulação digital dependia de perceber falhas visíveis, um movimento estranho, uma voz fora de sincronia. Esses sinais estão desaparecendo. A sofisticação da tecnologia avançou mais rápido do que a capacidade das pessoas de acompanhá-la, e é justamente essa lacuna que precisa ser endereçada”, afirma.
O ambiente de desconfiança se estende além dos vídeos. A pesquisa mostra que 43,2% dos entrevistados reagiriam com raiva ao descobrir que um vídeo político foi feito com IA sem qualquer aviso — e 71,6% reconhecem viver em algum grau de câmara de eco nas redes sociais. A confiança na mídia está praticamente dividida ao meio: 50,9% afirmam confiar e 48,5% não confiam.
Os dados reforçam que o avanço da Inteligência Artificial não representa uma ameaça em si, mas um convite para que a sociedade desenvolva senso crítico, fortaleça instituições e se aproprie da tecnologia, antes que ela fique concentrada nas mãos de quem a usa para manipular.
Sobre a pesquisa
O levantamento foi realizado entre os dias 25 e 29 de abril de 2026, com 2.483 participantes recrutados via redes sociais em todas as regiões do Brasil. O estudo analisou hábitos de uso de Inteligência Artificial, comportamento digital e a capacidade dos entrevistados de identificar conteúdos audiovisuais produzidos por IA.
Mais informações e acesso aos dados completos da pesquisa: Link
Sobre Projeto Brief
O Projeto Brief, iniciativa da Quid, é uma plataforma de comunicação política com foco em dados e campanhas mobilizadoras. Sua missão é fortalecer a compreensão sobre temas políticos relevantes e oferecer ferramentas de comunicação que apoiem a construção de discursos mais estratégicos e eficazes, tanto no ambiente digital quanto fora dele.


