“Existe uma parte dessa relação com a inteligência artificial que permanece invisível para os pais”, afirma João Paulo Batistella
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta para pesquisas e tarefas escolares e passou a ocupar um espaço mais íntimo na rotina de crianças e adolescentes. Dúvidas sobre o corpo, conflitos com amigos, inseguranças e pedidos de conselhos já são levados aos chatbots sem que, muitas vezes, os pais saibam que essas conversas estão acontecendo. O avanço desse comportamento cria uma preocupação dentro das famílias: até que ponto os filhos estão confiando à tecnologia questões que ainda não conseguem dividir com um adulto?
João Paulo Batistella, especialista em inteligência artificial, explica que a principal mudança está na maneira como crianças e adolescentes se relacionam com a tecnologia. Em vez de digitarem uma dúvida, receberem uma lista de páginas e encerrarem a busca, eles encontram uma ferramenta disponível a qualquer hora, capaz de responder imediatamente, manter o contexto e adaptar a linguagem a cada nova pergunta. “A inteligência artificial não entrega apenas uma informação. Ela retoma o que foi dito e cria uma sensação de diálogo. Para os mais jovens, essa experiência pode se aproximar muito mais de uma conversa do que de uma pesquisa”, afirma.
Um levantamento da Common Sense Media com 1.060 adolescentes de 13 a 17 anos, nos Estados Unidos, ajuda a dimensionar esse comportamento. A pesquisa mostrou que 72% já haviam utilizado companheiros de inteligência artificial e 52% mantinham esse contato regularmente. Entre os usuários, um em cada três afirmou já ter escolhido a IA, em vez de uma pessoa, para conversar sobre um assunto sério. Batistella alerta que o principal risco está na confiança depositada em respostas que podem parecer seguras e acolhedoras, mesmo quando estão erradas ou desconsideram informações importantes. “A ferramenta não conhece a história daquela criança, não percebe tudo o que ela omitiu e não consegue avaliar uma situação como alguém que acompanha sua vida. Ainda assim, pode formular uma resposta convincente o suficiente para ser recebida como um conselho”, explica.
Algumas plataformas já permitem vincular a conta do adolescente à de um responsável, limitar recursos, estabelecer horários de uso e, em situações específicas, receber alertas de segurança. Também é possível bloquear aplicativos ou restringir o acesso a sites pelos controles do celular, mas essas barreiras não permitem aos pais acompanhar todas as perguntas feitas pelo jovem. “Os pais podem limitar o acesso e configurar proteções, mas precisam saber quais ferramentas o filho utiliza e para que recorre a elas. Se a inteligência artificial já virou o lugar onde ele pede conselhos, a família precisa conhecer essa relação antes de simplesmente bloquear. O controle reduz o acesso, mas é o diálogo que permite identificar o que está acontecendo”, conclui.


