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Mulheres já são maioria na indústria farmacêutica e ocupam 44% dos cargos mais altos, superando a média nacional
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Pesquisa com 95 empresas mostra que elas ocupam 51% dos postos de trabalho no setor, 49% dos cargos de coordenação e supervisão e 44% das posições de diretoria, presidência e vice-presidência

A indústria farmacêutica brasileira consolidou a presença feminina como uma das marcas de seu mercado de trabalho: as mulheres já representam 51% dos colaboradores do setor e ocupam 49% dos cargos de coordenação e supervisão, 45% das posições de gerência e 44% dos postos de diretoria, presidência e vice-presidência. Na comparação com o conjunto da indústria brasileira, o setor também se destaca: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres correspondem a 44% dos trabalhadores e a 39% das lideranças. Os dados são da 3ª edição da pesquisa “Presença e Liderança Feminina na Indústria Farmacêutica”, realizada pelo Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) em parceria com a LeaderShe, rede que impulsiona a liderança feminina no setor de saúde no Brasil.

Embora a indústria farmacêutica seja considerada uma das mais avançadas em diversidade de gênero, o crescimento da participação feminina ainda lida com obstáculos importantes, especialmente em áreas estratégicas e no acesso ao topo da hierarquia. Executivas relatam que, mesmo diante dos avanços, mulheres seguem enfrentando a necessidade de validar constantemente sua capacidade técnica e de equilibrar expectativas distintas sobre a forma de liderar.

É nesse contexto que se destacam as trajetórias de Isabel Bretas, diretora associada de informações médicas para as Américas da PTC Therapeutics, biofarmacêutica global, e Michelly Silva, diretora de contabilidade para a América Latina da companhia. Em áreas distintas – médica e financeira – ambas construíram carreiras marcadas por desafios e pela defesa de uma liderança mais humana, inclusiva e colaborativa.

Para Isabel Bretas, um dos momentos mais marcantes da carreira veio recentemente, ao assumir uma liderança regional nas Américas dentro da companhia, passando a coordenar equipes multiculturais. Ela conta que a experiência trouxe um novo cenário de atuação e também reforçou reflexões sobre os benefícios da presença de mulheres em posições de comando. Para ela, características frequentemente associadas à liderança feminina, como sensibilidade e escuta, se traduzem em competências como inteligência relacional e pensamento sistêmico, especialmente valiosas em contextos complexos. “Diversidade na liderança amplia perspectivas e melhora decisões e resultados”, defende.

Michelly Silva construiu sua trajetória na área financeira, ambiente tradicionalmente mais masculino. De acordo com um levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), as mulheres ocupam apenas 35,4% das vagas em empresas do mercado financeiro. Ela se lembra de participar de mesas estratégicas em que era a única mulher, cenário que, segundo ela, vem mudando gradualmente nos últimos anos.

A diretora conta que sua carreira foi marcada pela criação de estruturas e processos do zero, incluindo a implementação da área de controladoria na PTC Therapeutics. Antes mesmo de ocupar formalmente cargos de liderança, Michelly já exercia esse papel na prática, apoiada na proximidade com o time e na construção coletiva dos resultados. Para ela, a baixa representatividade e os questionamentos, muitas vezes sutis, enfrentados pelas mulheres ao longo da carreira podem levá-las a duvidar da própria capacidade. “Isso faz com que as mulheres desenvolvam uma expertise muito afiada e sejam extremamente competentes”, afirma. Sua principal mensagem para outras profissionais é que confiem mais em si mesmas e reconheçam o valor de suas conquistas.

Apesar de trajetórias diferentes, Isabel e Michelly compartilham uma visão semelhante sobre liderança. Ambas defendem uma gestão baseada em escuta ativa, autonomia, valorização das diferenças e proximidade com as equipes. “Gerenciar pessoas é mais importante do que gerenciar processos. Mesmo com perfis diferentes, o desenvolvimento das pessoas é uma linguagem universal”, afirma Isabel. Já Michelly reforça que os resultados dependem da construção coletiva. “Ninguém é líder sozinho. Sempre entendi que os resultados dependem da proximidade com o time”, diz.

Michelly também destaca a importância de políticas concretas para ampliar a participação feminina em posições estratégicas. Entre os diferenciais da PTC Therapeutics, ela cita o modelo híbrido, o foco em entregas e um ambiente que favorece o diálogo e a escuta. As experiências das duas executivas dialogam diretamente com os dados do levantamento do Sindusfarma. Hoje, 34% das empresas do setor estabelecem metas específicas para ampliar a participação de mulheres na liderança, 33% utilizam indicadores de acompanhamento e 36% oferecem programas de desenvolvimento de lideranças femininas.

Na PTC Therapeutics, iniciativas de apoio ao desenvolvimento profissional também fazem parte da estratégia. Isabel, por exemplo, conta que recebeu mentoria da empresa ao assumir a gestão regional nas Américas. “A empresa procurou uma mentora que tinha vivido um momento muito parecido com o meu. Isso me trouxe segurança e suporte”, relembra.

Apesar dos avanços na presença feminina em cargos de liderança, os desafios de representatividade ainda são significativos. Áreas como tecnologia, operações e presidência seguem com baixa participação de mulheres, e a diversidade dentro da própria liderança permanece limitada: apenas 13% das mulheres líderes são negras e somente 2% dos profissionais do setor são pessoas com deficiência. O cenário reflete uma tendência global de desaceleração no avanço feminino em posições de comando, embora o Brasil ainda apresente índices acima da média mundial.

Na visão de Michelly, a mudança depende da construção de ambientes em que as mulheres realmente se sintam ouvidas. “Às vezes a pauta existe, mas as pessoas não têm segurança para falar”, afirma. Isabel compartilha do mesmo otimismo, acreditando que a presença feminina tende a aumentar nos próximos anos, mas declara que espera por mais: “Ainda somos menos do que poderíamos ser”, finaliza.

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