Em meio a promessas populistas em ano eleitoral, Lula gasta em publicidade mais que o dobro da quantia registrada em 2022, durante o governo Jair Bolsonaro
Legenda: Marcelo Tostes
Crédito: Divulgação/MTA
Por Marcelo Tostes
Luiz Inácio Lula da Silva talvez seja um dos políticos brasileiros que melhor compreendeu, ao longo de sua trajetória, como conquistar e manter votos. Ainda nos tempos de líder sindical, discursando em cima de carros de som nas portas das fábricas do ABC Paulista, Lula construiu sua carreira política apelando diretamente ao sentimento popular. Depois de disputar diversas eleições presidenciais, finalmente chegou ao Planalto e percebeu que havia uma fórmula ainda mais eficiente do que os discursos: utilizar a máquina pública para distribuir benefícios, criar expectativas e vender a ideia de que o governo é o grande provedor da população.
Ao contrário do que boa parte da população acredita, importantes programas de transferência de renda não nasceram no governo Lula. Iniciativas como o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação, o Auxílio Gás e o Cartão Alimentação, implantadas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, serviram de base para a criação do Bolsa Família, que unificou esses programas. A diferença é que Lula transformou essa política em uma poderosa ferramenta de marketing eleitoral, vinculando sua imagem diretamente aos benefícios e fazendo milhões de brasileiros acreditarem que dependiam exclusivamente de seu governo para manter uma renda mínima.
Desde então, o modelo se repetiu inúmeras vezes. Em períodos eleitorais surgem novas promessas, ampliação de benefícios, aumento de gastos públicos e discursos carregados de esperança. Foi assim com a famosa promessa da “picanha e cervejinha”, símbolo de uma prosperidade que, passados os anos, continua distante da realidade de grande parte da população. Neste ano de eleições, a mesma estratégia conhecida está em curso: promessa de ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, expansão de programas habitacionais e sociais, novas linhas de crédito subsidiado e o reforço de benefícios voltados às famílias de baixa renda.
O que vimos na prática, porém, foi um esforço tremendo de Lula em prol de sua autopromoção. Dados da execução orçamentária mostram que, no primeiro semestre de 2026, antes das restrições impostas pela legislação eleitoral, o governo federal empenhou cerca de R$ 520 milhões em publicidade institucional, mais que o dobro dos R$ 213,5 milhões registrados no mesmo período do ano eleitoral de 2022, durante o governo Jair Bolsonaro.
O problema não está na existência de programas sociais voltados aos mais vulneráveis. Uma sociedade minimamente justa deve amparar aqueles que realmente precisam. A questão é quando essas políticas deixam de ser instrumentos temporários de combate à pobreza e passam a ser utilizadas como estratégia permanente de manutenção do poder. Em vez de investir prioritariamente em educação de qualidade, qualificação profissional, infraestrutura, segurança jurídica e geração de empregos, cria-se uma relação de dependência entre parte da população e o Estado.
Essa política tem um custo gigantesco. Os programas sociais consomem centenas de bilhões de reais ao longo dos anos, recursos retirados dos impostos pagos por trabalhadores e empresas. Como o governo não produz riqueza, todo benefício distribuído precisa ser financiado pelo contribuinte, muitas vezes acompanhado de aumento da carga tributária, crescimento da dívida pública ou expansão dos gastos estatais.
A lógica lembra a de muitos pequenos municípios brasileiros. Existem cidades que não possuem hospitais adequados, escolas de qualidade, saneamento básico ou infraestrutura mínima. As ruas permanecem esburacadas e os serviços públicos deixam a desejar. Ainda assim, em época de festas, contratam artistas por valores milionários para oferecer algumas horas de entretenimento à população. O espetáculo acaba, o dinheiro desaparece e os problemas permanecem exatamente os mesmos.
Na Roma Antiga, essa estratégia ficou conhecida como “pão e circo”: distribuir alimento e entretenimento para reduzir a insatisfação popular enquanto os problemas estruturais eram ignorados. Séculos depois, a prática continua viva em diversos governos populistas ao redor do mundo.
Não por acaso, muitos dos governos de esquerda na América Latina enfrentam graves crises econômicas, fiscais e institucionais. Em vez de priorizar o crescimento sustentável, o aumento da produtividade, a liberdade econômica e a geração de riqueza, insistem em ampliar o tamanho do Estado, distribuir benefícios cada vez maiores e alimentar a ilusão de que o desenvolvimento pode ser construído apenas com gasto público.
O resultado costuma ser conhecido: aumento da dívida, inflação, perda da capacidade de investimento do Estado, fuga de empresas, redução do crescimento econômico e uma população cada vez mais dependente do próprio governo.
Programas sociais são importantes quando funcionam como ponte para a emancipação das pessoas. Tornam-se prejudiciais quando se transformam em instrumento eleitoral permanente. O verdadeiro combate à pobreza não acontece quando o Estado distribui renda indefinidamente, mas quando cria condições para que cada cidadão possa produzir, empreender, trabalhar e conquistar sua independência financeira com dignidade.
A história demonstra que nenhum país prosperou sustentando seu desenvolvimento apenas na distribuição de benefícios. As nações que enriqueceram investiram em educação, segurança jurídica, liberdade econômica, produtividade e geração de empregos. O restante é apenas a velha política do pão e circo; eficiente para ganhar eleições, mas incapaz de construir um futuro sólido para o país.
Marcelo Tostes é advogado, conselheiro federal da Ordem dos Advogados do Brasil e CEO do Marcelo Tostes Advogados. Atua há décadas na advocacia empresarial, com experiência em temas relacionados ao direito corporativo, governança e resolução de conflitos. Também participa de debates e iniciativas voltadas ao aprimoramento do ambiente jurídico e empresarial no país. É reconhecido por sua atuação institucional junto à advocacia brasileira e ao setor produtivo.


