Diante do impasse prolongado na tentativa de regulamentar o trabalho por aplicativos, o governo Lula decidiu mudar de abordagem. Sem conseguir construir maioria no Congresso para avançar com regras para o setor, o Planalto passa a investir em crédito como forma de acessar, e influenciar, uma categoria numerosa, heterogênea e cada vez mais relevante nas grandes cidades.
A nova aposta se materializa em uma linha de financiamento de até R$ 150 mil para motoristas de aplicativo e taxistas, com potencial de alcançar R$ 30 bilhões. Operado pelo BNDES, o programa combina prazos longos, carência inicial e juros abaixo da Selic, um desenho que busca ampliar o acesso, mas também induzir renovação de frota em larga escala.
A mudança de estratégia não ocorre por acaso. Ao longo de 2025, a proposta de regulamentação defendida pelo governo perdeu tração diante de resistências cruzadas: empresas, motoristas e parlamentares, por motivos distintos, bloquearam o avanço do projeto. Sem saída legislativa clara, o Executivo passa a atuar por outra via, menos estrutural, mais pragmática.
Por trás dessa inflexão está um dado central: o setor é marcado por profundas desigualdades de renda, que variam não apenas entre estados, mas dentro deles. Levantamento do GigU mostra que, na Região Metropolitana de São Paulo, motoristas registram lucro médio de R$ 15,57 por hora, com margem de 43,6%. No interior, esse rendimento cai para R$ 10,11, uma diferença que, ao longo de um ano, pode ultrapassar R$ 13 mil.
A distorção se repete em outros mercados. Em Minas Gerais, a renda média na região metropolitana de Belo Horizonte chega a R$ 16,05 por hora, enquanto no Triângulo Mineiro fica abaixo de R$ 10. No Rio, motoristas na capital ganham, em média, R$ 18,49 por hora, patamar bem acima do registrado em cidades do interior. Na Bahia, o contraste entre Salvador e municípios turísticos do interior segue a mesma lógica.
Esse desnível ajuda a explicar por que políticas uniformes encontram resistência e também revela um efeito colateral do novo programa. Ao atrelar o acesso ao crédito à capacidade de pagamento, a iniciativa tende a favorecer motoristas de regiões mais dinâmicas, onde a renda é maior e a demanda mais estável. Em áreas periféricas ou menos movimentadas, onde o retorno é mais baixo e irregular, o acesso pode ser mais restrito.
O governo tenta mitigar esse risco com critérios que limitem o crédito a motoristas efetivamente ativos. Ainda assim, a aposta central é outra: responder a uma demanda concreta da categoria. Segundo levantamento Datafolha, 87% dos motoristas pretendem trocar de veículo nos próximos anos e a maior parte depende de financiamento para isso.
Sem conseguir reorganizar o setor por meio de regras, o Planalto passa a atuar sobre seus incentivos econômicos. Mais do que uma política de mobilidade, o programa se encaixa em uma estratégia mais ampla: ampliar presença junto a trabalhadores autônomos em um momento em que esse grupo ganha peso político e eleitoral.
Criada em 2017, a GigU (anteriormente chamada StopClub) é uma startup que aumenta a lucratividade e segurança de motoristas e entregadores de aplicativo por meio de ferramentas inteligentes. Está entre as missões da GigU criar uma comunidade unida e cada vez maior, que ofereça soluções de segurança e financeira personalizadas de acordo com a dor e necessidade de cada trabalhador. Atualmente a GigU é a maior comunidade de trabalhadores de aplicativo do Brasil somando mais de 250 mil usuários em uma rede de compartilhamento de conhecimentos e experiências.


