Crescimento das ações judiciais revela avanço da inadimplência, impulsionado pelo crédito fácil, pelas apostas on-line e pela dificuldade de consumidores em equilibrar o orçamento
O número de dívidas que chegam à Justiça atingiu um patamar recorde no Brasil, com mais de 1,2 milhão de ações relacionadas à cobrança de débitos. O avanço da judicialização evidencia uma realidade cada vez mais presente no cotidiano das famílias: a dificuldade de manter as contas em dia diante do aumento do endividamento.
Especialistas apontam que o cenário é resultado de uma combinação de fatores. Entre eles estão a facilidade de acesso ao crédito, o uso frequente de empréstimos e cartões, o comprometimento da renda com juros e parcelas e o crescimento das apostas on-line, conhecidas como bets.
Para muitos consumidores, o problema começa com pequenas dívidas que se acumulam ao longo dos meses. O pagamento de uma conta com o cartão de crédito ou a contratação de um novo empréstimo para quitar compromissos anteriores pode criar um ciclo difícil de interromper.
A oferta cada vez mais acessível de crédito, especialmente por meio de aplicativos e plataformas digitais, facilitou a contratação de empréstimos e outras modalidades de financiamento. Embora o recurso possa ser importante em situações emergenciais, especialistas alertam para os riscos quando o consumidor não consegue avaliar o impacto das parcelas sobre a renda mensal.
Com juros elevados, uma dívida inicialmente pequena pode crescer rapidamente. Quando o consumidor deixa de pagar, empresas e instituições financeiras podem recorrer à Justiça para tentar recuperar os valores.
A judicialização, portanto, aparece como uma das etapas mais graves de um processo que geralmente começa muito antes, com o comprometimento excessivo do orçamento familiar.
Outro fator que passou a chamar a atenção de especialistas é o crescimento das apostas on-line. As chamadas bets ganharam espaço no país e podem contribuir para o agravamento da situação financeira de pessoas que utilizam recursos destinados a despesas básicas para apostar.
Em situações de perda, há consumidores que recorrem a cartões, empréstimos e outras formas de crédito para tentar recuperar o dinheiro, aumentando ainda mais o volume das dívidas.
O problema pode se transformar em uma sequência de novos empréstimos e atrasos, até chegar ao ponto em que o devedor não consegue mais cumprir os compromissos assumidos.
O endividamento elevado também pode provocar consequências sociais e familiares. A dificuldade para pagar contas, negociar débitos e lidar com cobranças pode gerar conflitos dentro de casa e comprometer o planejamento financeiro de longo prazo.
A orientação de especialistas é evitar a contratação de novos créditos para cobrir dívidas antigas sem antes fazer uma análise completa do orçamento. Também é importante buscar negociação diretamente com os credores e recorrer a mecanismos legais de renegociação quando necessário.
O recorde de processos funciona, assim, como um alerta sobre a necessidade de ampliar a educação financeira e de estimular formas mais responsáveis de concessão e utilização do crédito. Para especialistas, reduzir a judicialização passa não apenas pela cobrança das dívidas, mas também pela prevenção do superendividamento.


